segunda-feira, 18 de junho de 2007

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Entrevista Bad News

» Bad News - Abril/2007
Bad News

Entrevista ao vencedor "H2T Duelo Verbal": Bad News

Danilo, jovem angolano de 20 anos, residente em Alfornelos. É este o perfil de Bad News, cara desconhecida no início do H2T Duelo Verbal. Era certo que fora descoberto um novo talento quando os seus oponentes começaram a cair, um por um, frente a este mc. Logo após o fim do torneio, o H2T registou as suas primeiras palavras repletas de emoção. Bad News ainda não acreditava… Acabara de derrotar o Perigo Público numa final disputadíssima.


- Quando e como foi a tua iniciação, primeiro no movimento hip-hop e segundo, no freestyle, em concreto?
Bad News - Entrei no movimento hip-hop há 6 anos atrás e foi influência do meu primo. Via-o sempre com aqueles aspectos malucos, sempre a rimar à toa. E também disse para mim: ‘Oh, isso deve ser bom, também vou descobrir essa maneira de me expressar, de uma maneira que toda a gente oiça.’ Foi assim.

- Desde então, como foste evoluindo no freestyle?
Bad News - Saía do banho, em frente ao espelho. E quando estou assim em casa fico a insultar as minhas irmãs (risos), quando estou com os meus amigos insulto os meus amigos. Sempre assim. E vou desenvolvendo. E sempre que vou a qualquer sítio e vejo qualquer pessoa com calças largas eu vou lá perguntar se é mc e se quer batalha.

- Qual foi a battle que mais te marcou até hoje?
Bad News - Foi esta do Perigo Público porque eu estava mesmo intimidado, é a verdade, não vou mentir. E porque o Perigo Público era uma lenda.

- Como é que te sentes agora depois de ter derrotado a lenda?
Bad News - Uma lenda. Uma nova lenda.

- Tens algum freestyler que admires particularmente?
Bad News - Perigo Público. Ele é bom.

- Foi uma honra para ti, então…
Bad News - É, é. Já tinha nome e sempre que me ouviam fazer freestyle diziam: ‘Tu és bom, mas há um nigga chamado Perigo Público, ele é muito mau’. Eu dizia também, tipo no gozo: ‘Eu também sou mau’. Mas eles diziam: ‘Ele é melhor!’, e eu: ‘Tá bom então’. Eu baixava a bolinha.

- Diz-se frequentemente que em Portugal não há mc’s de battle. Concordas?...
Bad News - Até certo ponto concordo porque aqui há muito poucos. Os mc’s aqui são mais de freestyle, mas são melhores do que em qualquer outra parte porque têm ideias mais construtivas. Mas em termos de estupidez para fazer rir, os melhores mc’s de battle são os do meu pais, de Angola. São os melhores.

- …Na sequência da pergunta anterior, abrimos as inscrições há apenas três semanas e recebemos cerca de 36. Achas que se está a formar uma geração nova que poderá potenciar uma evolução a este nível?
Bad News - Sim, sim. Eu acho que devia haver mais disto. Toda a gente adora isto. Isto é uma coisa que qualquer pessoa de qualquer outro canto vem, como agora o Perigo Público veio do Algarve. De certeza que se fizerem mais isto vai haver mais audiência, muito mais. Uma coisa que eu achei, é que isto devia ser mas publicitado porque eu só ouvi isto por alto e as pessoas do meu grupo (Artilharia Pesada) disseram: ‘Danilo, tu não vais cantar porque se tu fores cantar, tu vais apanhar e estragas o nome do grupo’. Eu disse: ‘Mas eu me confio’. ‘Ah mas não’. Hoje fugi do ensaio, disse ‘olhem tou doente’, e vim para aqui.

- Acabaste por já responder um pouco a esta pergunta, mas se tiveres algo a acrescentar: Qual o papel de eventos como este no desenvolvimento, em Portugal, desta expressão particular do mc’ing? Que outras iniciativas podem ser tomadas?
Bad News - Concertos para a malta jovem. Mais iniciativas destas.

- O que é que te motivou a participar no H2T Duelo Verbal?
Bad News - Tipo… isso do Freestyle… Dizem ‘ah porque é bom, é bom, é bom’, e eu disse: ‘Ah eu também sou, vou-me lá meter’. Mas os meus niggas sempre a dizer: ‘não, não, não’. Eu falei com a Eva, uma amiga minha, ela foi uma das pessoas que mais me apoiou, sempre a dizer para eu ir. Eu disse: ‘Eu vou’.

- Queres dedicar a vitória a alguém?
Bad News - À minha filha que fez agora três meses. A ela e a mim.


Entrevista Sir Scratch

» Sir Scratch - Maio/2006
Sir Scratch
Sir, de excelência

Sir Scratch tem já uma longa história no Hiphop Nacional, conhecido como o mais novo dos “dois putos” que constitui Plunasmo (grupo que mantém juntamente com o seu irmão KapOne) e, na época de 99/2000, se evidenciavam em várias mixtapes dos DJ's Cruzfader, 30 Paus e Bomberjack e até mesmo na colectânea TPC.
Hoje, “os miúdos” do Esquadrão Central cresceram e apesar de ambos estarem a viver lá fora, continuam a dar provas no Hiphop Português. No que toca a Sir Scratch, depois da participação em “Conhecimento” de XEG e na colectânea “Poesia Urbana Vol.1”, “Cinema: Entre O Coração E O Realismo” marca a sua apresentação em nome próprio num trabalho que já está a dar muito que falar.

- Onde começa a história de Sir Scratch?
Sir Scratch -
A historia de Sir Scratch, é uma história que começa sem data certa. Mas começou mais ou menos nos meus 12 / 13 anos, quando eu comecei a cantar e a fazer freestyles com o meu irmão. O grupo ainda não era Plunasmo, chamava-se PSM, eramos para aí uns 4. Foi mais ou menos nessa altura em que fazia rimas com eles e andávamos aí em escolas a fazer cenas e daí foi desenvolvendo até agora.

- Actualmente, a tua história progride fora de Portugal. Como e quando aconteceu esse passo?
Sir Scratch -
Quando eu acabei o 9º ano e o meu irmão tinha acabado o 12º ano de escolaridade, fomos para Londres à procura de outras oportunidades na escola. Ficámos lá, o meu irmão conseguiu um curso de design, mas eu na altura não entrei na escola. Então fui para a Irlanda, que eu tinha lá familia, e consegui entrar naquele ano e tirei um curso de música... Gostei daquilo, já se passaram quase 6 anos e eu estou a gostar daquilo. Não me impediu de lançar o meu álbum, uma vez que já conhecia aqui pessoal (Bomberjack e etc..). Lancei e tenho vindo constantemente para fazer concertos.

- Diz-nos como vês os frutos dessa tua decisão, certamente, a longo prazo, vai ser uma grande mais valia?
Sir Scratch -
Sim, acho que são outras experiências, se calhar deu-me uma visão diferente do Hiphop Nacional. Às vezes dá-me gosto estar longe, há sempre aquelas saudades, aquele sentimento que eu via antigamente não desaparece. Eu sinto que as pessoas que estão cá, às vezes sentem-se fartos do movimento e assim, mas eu continuo sempre a sentir aquela cena antiga e acho que valeu a pena. E não só, a escola também valeu a pena, tenho outras oportunidades, já tive a trabalhar com outros artistas de lá e é sempre melhor estar com o trabalho mais expandido do que estar só a trabalhar aqui em cenas nacionais.

- Este album foi feito à distancia, mas já vieste várias vezes a portugal propositadamente para promover o àlbum.. Por isso mesmo acredito que tudo se torne mais intenso. Que tipo de reacções guardas de volta?
Sir Scratch -
O álbum até foi gravado cá, foi todo trabalhado lá, escrita e etc, e na hora de gravação vim cá um mês de férias e tivémos em estúdio para aí uma ou duas semanas a gravar.
É sempre bom estar longe do país, sem ter a noção da sensação que eu vou ter num concerto, como é que as pessoas estão a reagir ao álbum, e, ao chegar cá, dou um concerto e recebo grande apoio e feedback do pessoal, é sempre muito bom. É uma sensação muito grande uma pessoa poder entrar num país em que não vive, mas sabe que as pessoas estão sempre a par e gostam do trabalho. Há sempre vontade de voltar outra vez.

- Fora de Portugal, também comercializas o àlbum?
Sir Scratch -
Por acaso e infelizmente, ainda não, mas temos estado a tentar entrar em contacto com pessoal de Angola e Moçambique. Em Londres o meu irmão tem algumas cópias, e eu também vendi algumas na Irlanda, mas foi assim a amigos. Oficialmente, em lojas, ainda não, estamos a tentar, mas é difícil arranjar pessoal de confiança, é outro continente e tudo o mais, não podemos mandar 100 cd’s sem saber se o dinheiro vem ou não. Mas é uma possibilidade, estamos a tentar, até para expandir o trabalho e outras pessoas também poderem ouvir.

- Este album reune trabalhos e ideias antigas ou todos os temas foram criados numa fase mais proxima?
Sir Scratch -
Foi tudo numa fase mais próxima da gravação, quer dizer, eu já estava com uma ideia de fazer isto do álbum “Cinema”, mas a maioria dos temas foram mudados conforme os instrumentais, porque eu sou daqueles artistas que prefere ter o instrumental primeiro e depois sim, desenvolver uma letras a partir daí, acho que é a forma musical em como as coisas se encaixam mais.

- A nivel de convidados, foi dificil organizar e trabalhar com um leque tão vasto e distante? Como fizeste?
Sir Scratch -
Por acaso não foi muito difícil, metade dos artistas estavam cá, mas há artistas que eu ainda não conheço pessoalmente, como por exemplo o DJ Tombo, mas nos dias de hoje, com a internet, foi fácil. Foi falar ao telefone, ele mandar todo o material em pistas e foi feita a gravação. Mas a maioria dos convidados e produtores foram lá ao estúdio, tivémos juntos, trabalhámos e fizémos a cena, não foi muito difícil.

- Vendes este àlbum como se fosse um filme, que inclui diversas personagens, entre as quais tu mesmo numa faceta de introspecção. Gostavas que as pessoas valorizassem mais esse lado do argumento?
Sir Scratch -
Sim, este álbum foi muito pessoal e acho que as pessoas não estavam à espera de um primeiro álbum assim, tão sério e pessoal. Mas era isso que eu queria dar a entender às pessoas, que olhassem primeiro para mim e percebessem quem é e o que pensa o Sir Scratch. Antes de eu estar a fazer uma coisa mais alternativa ou um trabalho mais brincalhão, queria que as pessoas percebessem quem é o Sir Scratch como pessoa e depois sim, o artista viesse a demonstrar outras facetas noutros trabalhos.

- Ainda falta muito para o lançamento do álbum do teu irmão?
Sir Scratch -
O álbum do meu irmão está acabado, só falta mesmo a masterização e ele escolher o tipo de distribuição que vai ter. Não quero estar aqui a dizer datas porque já era para ter saido em Maio, mas talvez em Setembro o álbum dele apareça aí nas ruas.

- E Plunasmo? É improvável imaginar um àlbum de grupo numa próxima metragem?
Sir Scratch -
Não, nós tentamos sempre dizer que vamos fazer isso mas, às vezes, o tempo é que não nos deixa estar juntos para nos concentrarmos num álbum e fazer algo compacto. Mas não sei, em princípio para o ano, se Deus quiser, vamos estar aí com um álbum dos dois ou até mesmo uma mixtape a circular aí na net so para o pessoal estar a sentir Plunasmo.
Para já, no álbum dele, tal como foi no meu álbum, já tem pelo menos um tema nosso.

- Estando longe...acompanhas o Hiphop nacional? De que forma?
Sir Scratch -
Sim, costumo acompanhar pela Internet, rádios online, pelo vosso site também – H2Tuga (que toda a gente sabe que é aquele site tipo bíblia do Hiphop, tem informação, o pessoal vai sempre lá) e também através dos amigos, telefonemas e etc. Mesmo televisão, também tenho TV Cabo lá, então estou a par de vídeos, programas, Beatbox e etc. Posso dizer que sempre que posso, estou a par.

- E agora, o que é que o Sir Scratch anda a fazer?
Sir Scratch -
Agora, tenho feito concertos e divulgação do álbum, tenho estado em algumas participações aí de cenas que ainda estão para sair. Também estou a fazer agora um trabalho com o Mata-Frakuxz que é mais alternativo, uma mixtape que em princípio vai estar disponível na net, ainda sem data prevista, mas talvez em meados de Setembro também surja então aí um trabalho Sir Scratch e Mata-Frakuxz (ou Ikonoklasta para quem não conhece). Também tou a pensar no meu segundo álbum, ainda sem título sem nada, mas é só para o próximo ano, lá para o final. Se tivermos a inspiração e a força, saí ao mesmo tempo do álbum de Plunasmo (risos).

- Para quem não tem nada a perder, o que ganhaste com este àlbum?
Sir Scratch -
Ganhei satisfação, o primeiro álbum é sempre uma coisa muito especial e acho que até agora tem corrido muito bem, têm aparecido muitas oportunidades, Sic Radical, Super Bock Super Rock, são cenas que eu nunca pensava. Ter o vídeo no Top20 da MTV, por exemplo, são tudo motivos de orgulho enquanto artista. Acho que é isso que tenho a ganhar, eu meti o meu trabalho nas ruas com humildade, numa editora independente e o pessoal tem-nos dado grande feedback e tenho estado a dar muitos concertos e acho que o próximo passo é mais álbuns, mais concertos e estar aí no topo com outros artistas.

- Era uma abertura que imaginavas no Hiphop Nacional, há seis anos atrás quando partiste?
Sir Scratch -
Não, há seis anos atrás não imaginava nada disto. A primeira vez que o meu som tocou na rádio, acho que foi em 98, Plunasmo tocou na Antena3 e eu fiquei feliz, foi algo que nem me passava pela cabeça. Hoje, ter aí videoclips a passar e estar em grandes palcos, ao lado de Pharrel, 50 Cent, jamais imaginava e é mesmo grande orgulho estar lá a representar. Só espero que os artistas que estejam aí a aparecer possam ter as mesmas, ou até melhores, oportunidades de representar os seus trabalhos e que o Hiphop Nacional possa crescer.

- Mensagem final / Agradecimentos...
Sir Scratch - Queria agradecer pela entrevista, já tinha realizado uma entrevista para vocês, quando saiu a “Poesia Urbana Vol.1”, com o Lince, o Valete e o Adamastor, mas ainda não tinha feito entrevista sozinho. Também já o ano passado estava para actuar na festa de aniversário do site, mas infelizmente não pude, mas pronto, foi bom poder realizar esta entrevista agora.
Queria também mandar prop’s aí ao pessoal que esteve envolvido no álbum, e também aqueles que estão sempre como o Bomberjack, Bob da Rage Sense, Tamin e o X-Acto que também tem actuado comigo.

Entrevistas Valete


Aos 21 anos, Valete lançou o seu primeiro trabalho – ‘Educação Visual’ – surpreendendo tudo e todos com um álbum que é já um clássico no panorama do hip-hop nacional. Referência máxima para todos os aspirantes a liricistas em terras lusitanas, passados 4 anos Valete lança, a Outubro de 2006, o tão aguardado ‘Serviço Público’. Com a difícil tarefa de corresponder a altas expectativas e o desafio de superar-se a si próprio, temos assim um Valete mais maduro, mas também mais controverso. Tentando fugir a perguntas já largamente respondidas, o H2T foi conhecer este Valete.

- Passados 4 anos desde o Educação Visual, lanças o Serviço Público. O que mudou desde então? Quem é o Valete do Serviço Público?
Valete - No essencial mudei eu. Tirando o lado mais emotivo e radical que notas no Serviço Público, também se nota facilmente que é um álbum com músicas melhor elaboradas, que vão desde melhores beats, a letras melhor construídas, melhores refrões, melhor envolvência, mais versatilidade. Hoje eu posso-te dizer que sou o mc que sempre quis ser. Com a capacidade de envolver com o meu flow num beat lentíssimo com 82 bpm’s como o “Roleta Russa” ou num beat rapidíssimo com quase 100 bpm’s como é o “Anti-Herói”. Para além disso também me sinto bem preparado para fazer um texto de punchlines, storytelling, autobiográfico, sentimental, poético etc. Assim como abordar qualquer tema, desde o mais político ao mais trivial. Foi esta versatilidade que trabalhei muito nestes anos e que facilmente se nota no Serviço Público. Podes me dar qualquer beat, pedir-me qualquer tema, ou até qualquer estilo de escrita e eu já me sinto preparado para fazer qualquer coisa com boa qualidade.

- Explica-nos melhor em que consiste esta parceria Horizontal/Footmovin’. Adivinham-se futuras colaborações ou até mesmo uma fusão entre as duas editoras?
Valete - Quanto à fusão duvido, porque a linha editorial nas duas editoras é bem diferente. O acordo que temos com a Footmovin consiste numa parceria onde coube à Horizontal cuidar do todo o processo de produção do “Serviço Público” e a Footmovin cuidará da promoção e da distribuição com a SóHipHop que faz parte da mesma estrutura que a Footmovin. Resumindo, Serviço Público é um álbum da Horizontal que é promovido pela FootMovin e distribuído pela SóHipHop.

- O que podemos então esperar da Horizontal?
Valete - Podemos esperar que a Horizontal em muitos casos trabalhe apenas como uma produtora. Ou seja faremos os álbuns, e depois teremos uma pareceria com outra editora para que promova e distribua os nossos álbuns. Isto porque para mim como um dos gestores da Horizontal, é sempre muito penoso lidar com a indústria musical. Fazer trabalho de promoção e lidar com as rádios, tv’s, jornais, revistas, lojas e às vezes outras editoras é muito penoso, porque facilmente reparas que há muitos interesses e muita promiscuidade que se mistura. Os sons que passam mais na rádios e nos canais de música, dependem muitas vezes de acordos (alguns por baixo da mesa) e pactos que as editoras grandes têm com esses meios de comunicação social. Como sabemos que não se pode lançar álbuns sem promovê-los e como queremos estar longe dessa promiscuidade é mais fácil para nós fazermos uma pareceria com uma promotora que cuide disso, libertando-nos dessa parte.

- Já disseste noutras entrevistas que sentiste uma necessidade de te expores um pouco mais. De que forma é que essa exposição tem afectado, ou não, a tua vida pessoal?
Valete - Não vou mentir, afectou mesmo. Principalmente aqui na linha de Sintra que é uma zona que tem muitos hiphoppers e é também uma zona onde circulo muito, e quase a toda a hora vem gente abordar-me, vem gente a querer socializar comigo. É bonito isso porque é carinho, e esse pessoal só te está a manifestar isso, só que sinceramente deixa-me um pouco embaraçado porque é muito estranho para mim, andar em certas zonas e já não poder passar despercebido. Eu não sei mesmo lidar com isso, faz-me muita confusão. Sinto-me observado, vigiado. Mesmo quando vou a uma festa fico meio paranóico porque fico com a sensação que estão todos a olhar para mim, e logo não me sinto à vontade. Nunca me vou habituar.

- Este álbum foi ansiosamente aguardado pelos teus fãs, um grupo que tem vindo a crescer ao longo dos anos, devido, além do teu talento, à maior exposição do hip-hop nos media e com a Internet a desempenhar um papel chave. Isto faz-te sentir alguma responsabilidade no sentido de corresponder a expectativas elevadas?
Valete - Senti alguma, mas eu estava perfeitamente tranquilo porque sabia que a referência que as pessoas tinham de mim era o “Educação Visual” e eu sabia que o “Serviço Público” iria ser um álbum bem superior, porque nestes anos que passaram senti muito a minha evolução como MC.

- Ainda no seguimento da questão anterior, é certo que terás consciência da influência que o teu trabalho tem sobre a nova geração de mc’s e do impacto que os teus ideais têm na forma de pensar do teu público, cada vez mais jovem. Achas que este impacto merece alguma prudência no tratamento de certos temas, como a religião ou a política?
Valete - Já me disseram isso, disseram-me para ser mais moderado etc. Mas aí isso já estaria a afectar o meu rap, entendes? O comportamento do público nunca pode interferir na tua criação, porque aí já estás a ser falso contigo mesmo. Eu sou mesmo aquele gajo que caga para tudo o que se diz, eu sou sempre eu, sou sempre o que sinto. E como eu até acho que o meu rap tem uma mensagem muito mais positiva que negativa mesmo com todo o radicalismo, não sinto mesmo necessidade nenhuma de moderar.

- Neste álbum afirmas-te, mais do que nunca, como um revolucionário. Como é que vives isso no teu dia-a-dia?
Valete - Ehehe não, não sou um revolucionário. Às vezes alguns rappers dizem que são revolucionários mas devemos encarar isso num sentido figurativo. Eu acho que revolucionário foi o Che Guevara, o Lumumba, o Ghandi. Alguns de nós, rappers mais progressistas, exprimimos ideias de revolução, mas acho não nos devemos considerar como revolucionários. É uma palavra muito forte, e não basta teres um rap de ruptura e fazeres umas palestras nos bairros para te considerares um revolucionário. No meu dia-a–dia tento ser o quanto possível fiel aos meus ideais. Tento apoiar o pequeno comércio, comprando produtos em pequenas lojas e mercado negro, evitando sempre que possível as multinacionais, tento ser sempre verdadeiro e honesto com aqueles que me rodeiam, respeito as mulheres, não sou materialista, voto em todas as eleições e nunca voto no “sistema” = PS/PSD, e normalmente denuncio as coisas com as quais não concordo. Eu sou exactamente o que mostro na música.

- Essa postura de revolucionário revela-se, também, na maneira pouco ortodoxa como abordas certos temas. Sentes necessidade de chocar as pessoas?
Valete - Eu acho que choco porque para além das pessoas em geral serem muito hipócritas, pudicas e conservadoras, não estão habituadas a ouvir música da vida real. Tudo o que eu digo na rua, digo na música. Aquele discurso que fiz no “Pela musica pt 1” em que critiquei o pessoal programado pelas rádios e tv’s, é o que eu digo no dia-a-dia e digo daquela forma. Alguns manos que já me conhecem e já me tinham ouvido dizer coisas parecidas ficaram chocados porque eu pus aquilo no álbum. Esse é o problema, o pessoal está muito habituado a ouvir músicas com flores e arco-íris, e o meu rap vem mesmo para abalar esse mundo cor-de-rosa que eles querem dar às pessoas. A realidade é bem crua e lamacenta e é isso que também temos que dizer às pessoas. E que se foda se chocamos ou não. Palavras são balas.

- Falando concretamente da faixa Roleta Russa, transmitiste uma mensagem sobre as DST como já outros grupos, nomeadamente Projecto Simbiose, o tinham feito, mas de outra forma. Não achas que a forma como abordaste este tema possa ofuscar a mensagem, na medida em que possa levar as pessoas a encará-lo quase como que um conto erótico e não como um alerta para um problema sério?
Valete - É uma pergunta muito boa. Foi um risco propositado. Porque sabes, há certos temas em que tu só consegues captar a atenção das pessoas se criares algum enredo paralelo que lhes possa atrair. Se eu fizesse uma cena educativa do tipo “ mano usa o preservativo, cuidado com a Sida”…people ia ouvir o som e mandar foder. Muitos rappers conscientes adoptam esse estilo de rap excessivamente pregador e moralista e tem pouco efeito porque muitas vezes o rap deles torna-se chato. “O Roleta Russa” como o “Fim da Ditadura” e o “Revelação” são das minhas músicas que chegaram mais longe, chegando até a públicos que nem gostam de hiphop, porque são sons muito visuais, em que a forma como história está narrada envolve as pessoas quase como se tivessem a ver um filme, por isso nem precisam de gostar da música. Então mesmo que as pessoas se atraiam pelo “Roleta Russa” pelo seu enredo e pela sua parte erótica, vão na mesma ouvir a mensagem que deixei a alertar para o uso do preservativo, e o facto de ter esse enredo paralelo faz com que o som se torne mais atractivo e assim chegue a muito mais gente. Para mim se em cada 100 pessoas que ouvirem o som, 10 absorverem bem a mensagem a missão já estará cumprida.

- Na faixa Pela Música criticas a rádio, os canais televisivos e as editoras majors por imporem aos jovens um gosto musical formatado. Recentemente, Rui Ventura saiu da MTV deixando livre o cargo de Marketing and External Relations Manager da MTV. Se pudesses ocupar este cargo, uma vez que esta é a tua área profissional, o que é que mudavas?
Valete - Não sei se esse cargo tem a ver com a programação do canal, porque é essencialmente na programação que eu acho que eles têm que fazer alterações. A MTV Portugal não está nem entre os 10 canais mais vistos da TV cabo. Primeiro porque eles importam alguns programas da MTV americana que não têm impacto nenhum em Portugal. São países e realidades completamente diferentes, e depois porque com o aparecimento de programas na internet como o YouTube as pessoas conseguem ter acesso a todos os videoclips às vezes até antes da MTV. A MTV Portugal tem que seguir a estratégia da Fnac. Em Portugal a única cadeia de lojas de música que resistiu à crise da indústria musical foi a Fnac… e porquê? Enquanto as outras lojas só apostavam em ter os álbuns dos Tops e das Pop stars, a Fnac apostou seriamente na diversidade. A fnac tem hiphop hardcore, neo Jazz, Drum’N Bass, neo soul, Black metal etc. A Fnac tem tudo desde o mais Pop ao mais underground e alternativo. Isso faz com que todo o tipo de gente se dirija à loja porque sabem que lá podem encontrar tudo. Eles também vendem livros e electrodomésticos, mas é com a música que fazem mais dinheiro. O que a MTV faz é afastar do canal toda a gente que gosta de boa música. Porque quem gosta de boa música não se identifica com essa cultura Pop que engloba Boys Bands, HipHop Bling Bling, Pop Rock e afins tão promovida por eles. Antigamente o pessoal ainda via a MTV porque não tinha outras formas de ver clips, agora com a massificação da Internet e de programas como o YouTube o pessoal que realmente gosta de música já nem passa pela MTV. A MTV tem que apostar na estratégia de diversidade e especialização da Fnac. Tem que ter um bom programa de Hiphop (não é o “Yo”, que mais de metade do que passa é bosta) tem que ter um bom programa de Metal, um bom programa de Soul, de Reggae, de Dance Music, e bons programas de outros estilos musicais mais relevantes. Até podem nem acabar com a playlist, mas têm que incluir nessa playlist sons dos artistas mais talentosos e mais aclamados na rua, façam eles Pop, eletrónica ou Jazz. Eles têm que estar a par de tudo, porque muitas vezes vês clips de artistas majors a passar a toda a hora, mas esses artistas nem estão a vender nada aqui em Portugal, enquanto há artistas independentes a vender milhares de cópias e a MTV não os põe na playlist só porque não estão em editoras grandes.

- Para finalizar vou lançar algumas palavras e peço-te que respondas quase instintivamente, associando à palavra uma das tuas músicas, sem te limitares apenas a este último álbum, Serviço Público.

Liricismo… Subúrbios

Revolução…Fim da Ditadura

Hip-Hop…Canal 115

Nostalgia…Hall of Fame (um som que sairá na compilação do DJ Núcleo)

Quotidiano…Revelação

Ex-líbris…Serviço Público

Valete…Anti Herói